Baianos encaram 8 km na festa do Bonfim; religiosos pregam tolerância

Festa com dois séculos de história reúne pelo menos 500 mil pessoas.
Ato ecumênico foi realizado antes de caminhada; ‘sejamos mais tolerantes’.

Marcado pelo sincretismo, cerca de 500 mil pessoas percorrem 8 km na Lavagem do Senhor do Bonfim, santo considerado padroeiro de coração dos baianos e que acontece em Salvador nesta quinta-feira (14). Antes do início da caminhada, representantes políticos e religiosos participaram de um ato ecumênico em frente a igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia. Há 28 anos o eletrotécnico Daniel Abelardo participa do festejo atrás dos Filhos de Gandhy. A cada ano, ele paga uma nova promessa. 

Daniel arrumando os trajes para sair no cortejo dos Filhos de Gandhy, em Salvador (Foto: Maiana Belo/G1)Daniel arrumando os trajes para sair no cortejo
dos Filhos de Gandhy  (Foto: Maiana Belo/G1)

“O gandhy que ‘veste a camisa’ já é uma pessoa da paz. Cada um tem sua tradição de fé e a minha é vir para cá também. Hoje estou aqui para pagar a promessa que fiz, que era a der construir minha casa. Já está prontinha. Fiz a promessa no ano passado e agora vim para pagar”, disse.

A aposentada Maria Renalda também foi pagar a promessa, mas ainda não pode fazer a caminhada completa porque se recupera de um problema no joelho.

“Vim cumprir a promessa que pedi para melhorar meu joelho, mas infelizmente não consigo caminhar até a Sagrada Colina, mas venho aqui na Conceição [da Praia] e faço minhas orações. Ano que vem estarei ainda melhor”, disse.

Para Euvânia Lopes da Silva, o momento é principalmente agradecer ao Senhor do Bonfim. “É gratificante participar dessa caminhada. Há 15 anos participo. É o dia de me sentir princesa e agradecer a Senhor do Bonfim pelo ano que passou”, afirmou a baiana.

Turista curitibana na festa do Senhor do Bonfim (Foto: Maiana Belo/G1)Turista curitibana na festa do Senhor do Bonfim
(Foto: Maiana Belo/G1)

Pela primeira vez na festa, a turista de Curitiba Débora Santiago disse que não fez nenhuma promessa, mas que, independente da fé, admira as manifestações culturais. “Estou achando tudo muito bonito. Fico encantada porque é uma festa de cultura brasileira que traz uma mistura de religiões”, disse.

Ato ecumênico
Diversos religiosos participaram do ato ecumêninco que deu início à tradicional Lavagem do Bonfim, em Salvador.

O ato começou por volta das 8h, em frente à igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, na Cidade Baixa e, às 8h50, os fiéis seguiram em caminhada para a Igreja do Senhor do Bonfim. Representantes das igrejas de matriz africana, católica, messiânica, espírita e hinduísmo falaram sobre tolerância religiosa e a importância de respeitar a diversidade.

Líderes do hinduísmo, candomblé e espiritismo em ato eumênico em Salvador (Foto: Maiana Belo/G1)Líderes do hinduísmo, candomblé e espiritismo
em ato eumênico (Foto: Maiana Belo/G1)

“Que a gente saiba respeitar o diferente e saiba viver em uma sociedade plural. Que não só hoje, mas todos os dias a paz reine sobre todos. Que sejamos mais tolerantes”, disse Anselmo José Santos, representante do terreiro Mokambo, em Salvador.

O padre Irineu Jairo de Jesus Meneses disse que a tolerância é algo que devemos exercer diariamente. “A tolerância e a concórdia são algo possível que devem estar no nosso cotidiano. Somos todos irmãos filho de um mesmo Deus e essa festa traduz a diversidade de cultura”, falou.

“Esse é um dia em que todas as religiões celebram a paz. Vários fieis da igreja messiânica estão aqui hoje e participam da caminhada. Isso é importante principalmente em momento em que falamos muito de paz”, disse o ministro da igreja messiânica de Salvador e região metropolitana, Guilhermo de Souza Peixoto.

Participação de políticos
O governador da Bahia, Rui Costa, e o prefeito de Salvador, ACM Neto foram alguns dos representantes políticos que compareceram à Lavagem do Bonfim. Ambos participaram do ato ecumênico e seguiram em cortejo.

“Paz e um ano melhor do que 2015”. Esse foi o pedido do governador, que afirma participar da festa desde a infância. “Eu diria que o coração de todo baiano bate mais forte nesse momento. Que é um momento de simbolismo para cada um de nós. Eu desde criança participo do Bonfim, é uma emoção especial. Confesso a vocês que o ritmo da batida do coração é diferente. Que Deus e Senhor do Bonfim proteja todos nós”, disse Rui.

Já ACM Neto falou sobre a fé. “O que eu peço sempre é proteção, saúde e força para enfrentar os desafios que a vida diariamente nos coloca. Peço também pela nossa cidade, por cada morador de Salvador, cidade que é marcada pela fé do seu povo. Com muita fé fazemos esse percurso até a Colina Sagrada, até os pés de Nosso Senhor do Bonfim para desejar um 2016 com muitas vitórias. O [Senhor] Bonfim é o termômetro da minha fé e nada mais do que isso”, disse ACM Neto.

Simbolismos do festejo
O padre Edson Menezes, reitor da Igreja do Bonfim e o pesquisador da afrobaianidade e professor da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Gildeci Leite explicam sobre o sincretismo que envolve a festa. “A Lavagem do Bonfim é um momento de integração entre diversas religiões, devotos, turistas e políticos. Na verdade, é um grande encontro. Em um momento de terrorismo, em que a religião é usada como instrumento que contribui para a violência, estamos aqui dando uma lição ao mundo”, resume o Menezes.

Lavagem do Bonfim (Foto: Camila Souza/GOVBA)Lavagem do Bonfim (Foto: Camila Souza/GOVBA)

Leite explica que Senhor do Bonfim e Oxalá são entidades diferentes, que se complementam. “Oxalá é o filho mais velho de Olorum [Divino Criador], aquele que habita o céu. Dentro da proposta espiritualista, entendemos que o Senhor do Bonfim é o filho de Oxalá”, detalha. Para os católicos, o Nosso Senhor do Bonfim é a representação do Cristo Crucificado.

Historicamente, a fé do povo de santo e dos católicos se entrelaça. Leite detalha que um dos símbolos desse cruzamento entre as religiões está nas vestimentas brancas usadas pelos fiéis. “Oxalá é o Senhor do Pano Branco”, explica sobre a absorção do ritual na festa católica. “A grande importância vem aí. A cultura negra foi associada à Lavagem do Bonfim”, complementa. Gildeci Leite acredita que o sincretismo entre as religiões, inclusive, foi responsável por eleger um novo padroeiro para a capital baiana. “São Francisco de Xavier é o padroeiro de Salvador, mas todo mundo jura de pé santo que é o Senhor do Bonfim. E o que é a voz do povo?”, brinca.

Para o padre Edson Menezes, reitor da Igreja do Bonfim, o encontro entre as religiões nos festejos da Lavagem do Bonfim é visto com respeito pela Igreja Católica. “Como nós sabemos, o sincretismo resultou de um momento histórico de colonização. Encaramos isso com respeito e consideração. Achamos que é algo próprio da cultura que deve ser valorizado e reconhecido”, afirma.

Lavagem do Senhor do Bonfim 2016 (Foto: Max Haack/Ag Haack)Lavagem do Senhor do Bonfim
(Foto: Max Haack/Ag Haack)

A festa do Senhor do Bonfim ocorre desde 1750, incorporando em sua trajetória religiosidade e características profanas. Informações da Secretaria de Turismo apontam que a tradição da lavagem começou com os escravos, quando eles preparavam o templo para o domingo festivo. Mulheres vestidas com trajes brancos e de torços na cabeça colhiam água em uma fonte do bairro do Bonfim, que era levada à Colina Sagrada em lombo de burro. Durante o trabalho, cantava-se e dançava-se. Desde então, as homenagens acontecem sempre no segundo domingo após o dia 6 de janeiro, data em que a Igreja celebra a Festa de Reis.

Fiéis acompanham ato ecumênico em frente à Igreja da Conceição da Praia, no bairro do Comércio, antes do início do cortejo (Foto: Maiana Belo/G1)Fiéis acompanham ato ecumênico em frente à
Igreja da Conceição da Praia, no Comércio,
antes do início do cortejo (Foto: Maiana Belo/G1)

Programação
A programação em homenagem ao Senhor do Bonfim foi aberta no dia no dia 7 de janeiro, com o início do novenário (que é interrompido no dia a lavagem), e segue até domingo (17), quando se celebra o Senhor do Bonfim.

No domingo, a programação tem início às 4h30, com alvorada e repique dos sinos, seguido de missas às 5h, 6h e 7h30. A novidade durante a Lavagem é que os fiéis poderão passar pela “Porta da Misericórdia”, na Basílica Santuário Senhor do Bonfim, para pedir perdão pelos pecados. Às 12h acontece a acolhida às baianas pelos membros da Irmandade (Devoção do Senhor do Bonfim) e entrega das vassouras para a lavagem do adro da Basílica; após o ritual da lavagem do adro, a imagem Peregrina do Senhor do Bonfim ficará próxima à porta principal na Basílica Santuário para veneração pública até 18h; Já às 16h, Fiéis participam da Procissão dos Três Pedidos, com saída da Igreja dos Mares em direção à Colina Sagrada, onde dão três voltas em torno da Basílica, fazendo os três pedidos. A bênção do Santíssimo Sacramento e a queima de fogos de artifício finalizam as homenagens ao santo.

Lavagem do Senhor do Bonfim começa na Igreja da Conceição da Praia (Foto: Mateus Pereira/GOVBA)Lavagem do Senhor do Bonfim começa na Igreja da Conceição da Praia (Foto: Mateus Pereira/GOVBA)
Lavagem do Senhor do Bonfim 2016 (Foto: Mateus Pereira/GOVBA)Lavagem do Senhor do Bonfim 2016 (Foto: Mateus Pereira/GOVBA)